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COMO ESCOLHER O JARDIM DE INFÂNCIA IDEAL? Por Helena Gonçalves Rocha

Helena

 

A passagem do ambiente familiar para um outro contexto em que a criança passa mais tempo ao cuidado de outras pessoas do que connosco é habitualmente um período de transição e mudança difícil. Muitas vezes mais difícil para os pais que têm a noção que a sua escolha e decisão poderá ter um importante impacto no desenvolvimento da criança.

A verdade é que tudo correrá melhor se confiarmos nas pessoas e instituição à qual entregamos o nosso filho durante um largo período do dia. Como tal é muito importante que este local se aproxime o mais possível das nossas crenças e valores. Pais diferentes procuram coisas diferentes, e há uma escola para cada pai e não existem jardins de infância perfeitos, no entanto existem uns que estão mais em sintonia com aquilo que nós privilegiamos.

Quando for fazer as suas visitas, a alguns dos locais elegidos, depois de ponderar o que é realmente importante para vós enquanto família, deverá levar em conta alguns factores importantes que o poderão ajudar a tomar a decisão mais acertada.

Adaptação: Todas as crianças, mais tarde ou mais cedo, acabam por se adaptar, mas isso não significa que o processo tenha sido o desejável. A grande diferença pode estar na forma como a instituição promove a adaptação. Há locais que respeitam o ritmo da criança e dos pais e há outros que sugerem (ou até impõem) que a adaptação seja feita logo nos primeiros dias, mesmo que a criança se mostre visivelmente angustiada. Recordo-me sempre da minha cara de horror quando em resposta à minha pergunta: E então como vamos fazer a adaptação? Me responderam: basta trazer o cobertor dela e uns lençóis e pode começar já amanhã!

Para que a separação seja a menos traumática possível, aconselho sempre uma abordagem gradual, contrária à “terapia de choque” ou “penso rápido”, em que nos primeiros dias a mãe ou pai podem estar presentes na sala, sem grandes pressas ou pressões, e em que o tempo em que a criança permanece no local vai evoluindo conforme a intuição dos pais. Mesmo que posteriormente ela fique a chorar, já existirá uma ligação prévia com o local e com as pessoas e não será um espaço totalmente novo e assustador. Assim, é sempre bom informar-se previamente se existem dias definidos para a adaptação ou se esta é ajustável às necessidades de cada criança, sem pressões ou agendas.

Acolhimento: Para além da adaptação inicial, importa ainda saber se ao longo do ano as crianças são entregues e recolhidas na recepção ou se há liberdade para os pais irem à sala, nem que seja num horário específico ao início e fim do dia, sobretudo na faixa etária das crianças que frequentam a creche. Embora em alguns sítios seja prática comum não haver acesso às salas, com argumentos vários que vão da higiene até à segurança, o que resulta dessa prática é uma barreira entre a família e a instituição, que acaba por ser um preditor dos valores em que assenta a direcção pedagógica. Uma direcção que aposta na relação e que quer efectivamente constituir uma ponte com a família, não coloca esse tipo de regra e prefere gerir situações delicadas que possam surgir dessa abertura do que vedar à partida o acesso dos pais. Quando se deixa uma criança numa creche ou jardim de infância, é importante perceber que não se está apenas a receber a criança, mas também a família, ou seja, acolher aquela criança é também saber acolher os pais e as suas angústias, trabalhando no sentido de os deixar progressivamente mais seguros e confiantes e, eventualmente, comunicando o que possa ser feito para melhorar diversos aspectos. Uma creche aberta sabe que a creche é um prolongamento da família e que quanto maior proximidade existir entre os educadores, os pais e as crianças, numa relação o mais informal possível, maior é o vínculo que se estabelece entre todos. A verdade é que quando há essa liberdade, com o passar do tempo, acaba por ser um processo natural os pais não precisarem de passar para lá da porta da sala, para além de que é muito recompensador para os pais, depois de um dia inteiro sem os filhos, poderem assisti-los no seu ambiente com os amigos quando os vão buscar.

Espaço exterior: Quando temos um bebé de poucos meses, nem sempre pensamos muito nesta questão. Isso muda muito rapidamente quando eles começam a andar e percebemos que estarem várias horas confinados a uma sala não é nada positivo. É visível a tensão de uma sala quando as crianças passam demasiado tempo lá dentro. Há creches que não têm espaço exterior e que compensam essa falta com as idas ao parque. Acontece que uma ida a um parque ali perto de vez em quando, ou até mesmo todos os dias, é muito pouco. Os miúdos precisam de brincar e explorar ao ar livre mais do que uma vez por dia e de preferência bastante tempo. Incluo ainda no espaço exterior a necessidade de existirem elementos da natureza, por oposição a um espaço estéril, com um piso todo por igual, demasiado “limpo”. Areia, terra, árvores ou plantas são essenciais, enquanto que um espaço arquitectónico de linhas rectas estilo “capa de revista” não acrescenta felicidade às crianças. Não se deixe deslumbrar pela beleza do local ou pelas condições físicas do espaço, mas pela qualidade de interacções que o seu filho pode ter no mesmo. Num espaço menos artificial, elas ficarão bastante mais sujas e, certamente, muito mais felizes. Claro que, relativamente a este tema eu sou claramente suspeita pois é um dos factores que mais privilegio. Cada vez mais as nossas crianças precisam do contacto com a Natureza e de brincar no exterior, recordem-se do reforço das imunidades!

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Sala: Aqui privilegia-se uma sala que seja ampla, arejada, luminosa e que não esteja demasiado “atafulhada”. É comum as creches terem cores muito garridas o que torna o espaço visualmente cansativo para quem lá passa parte do dia. Nesta mesma sala, onde eles possam circular livremente e onde as mesas e as cadeiras não ocupem quase tudo, é bom que a disposição dos brinquedos permita às crianças ter acesso a diversos espaços diferentes de brincadeira (espaço de pinturas, espaço de livros, espaço de brincar ao faz de conta com cozinha, bonecos, etc). Uma sala que oferece diferentes opções para a criança ir brincando com aquilo que lhe apetece é muito mais positivo do que ter as coisas guardadas em móveis para que seja a educadora a oferecer o que se vai fazer em cada momento.

Alimentação: Convém perceber se os alimentos são confeccionados no local ou são trazidos de fora. Se existe cuidado e diversidade no planeamento da ementa semanal e se são respeitadas as restrições de cada criança. Onde são dadas as refeições e quem são os adultos que as acompanham. É incentivada a autonomia na alimentação, de que forma?  Caso este seja um critério que prioriza, não tenha receio de solicitar a ementa, ver uma refeição ou quem sabe ser convidado para almoçar.

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Etapas/ritmos/transições: Todas as creches têm no projecto educativo a contemplação do respeito pelo ritmo das crianças. Acontece que, na prática, há ideias diferentes sobre o que é isto de respeitar o ritmo e facilmente encontramos bebés com 6 meses de idade a cumprir horários de sestas e de refeições. É importante que haja flexibilidade para ter bebés a dormir, a comer, a brincar ou a fazer a sua higiene em momentos muito diferentes, até que estes atinjam a maturidade suficiente para seguir um horário mais previsível. E isso acontece com alguns aos 9 meses, com outros aos 12 e com outros aos 15. Há os que começam a dormir apenas uma sesta por dia a certa idade e outros que mantêm a necessidade de duas sestas mais tempo. Até podem conseguir seguir esse ritmo, mas a questão é sempre: a que custo.

Por outro lado, se tivermos em conta os mais crescidos, há por vezes uma pressão mais ou menos subtil sobre o suposto timing em que a criança deve largar a fralda, a chucha ou comer perfeitamente com os talheres. Todas as crianças saudáveis atingem essas etapas, pelo que apressá-las só porque têm determinada idade pode ser muito contraproducente. Há médicos que alertam para o facto de existirem muitos casos de obstipação infantil devido à retirada precoce das fraldas e, no entanto, há muitas instituições que definem que aos 2 anos é suposto todos conseguirem largar as fraldas.

Afecto: Neste ponto é importante que não exista demasiada rotatividade de cuidadores e que o bebé/criança possa ter uma educadora e uma auxiliar previsíveis. Apesar de formalmente ser assim, nem sempre o é na realidade e entre múltiplos estagiários e afins, aquele bebé habituado ao colo dos pais, de repente anda constantemente em colos diferentes. Mesmo entre educadora e auxiliar, geralmente a criança tem uma que é a sua referência, com quem se sente mais segura.

Conhecer pessoalmente a educadora e a auxiliar da sala e poder observar um pouco a dinâmica da sala, pode também ser muito tranquilizador.

Perceber que atendem ao choro com empatia, que dão colo com a mesma facilidade com que distribuem lápis de cor, que acalmam a criança que está mais vulnerável, em vez de transmitirem discursos como “isto é só mimo” ou “não se podem habituar muito ao colo” pode ajudar a perceber qual o comportamento mais expectável quando nem sequer estamos presentes. Ainda existem crenças de que, por exemplo, um bebé se deve habituar a consolar e adormecer sozinho no berço, mesmo que esteja a chorar.

Métodos educativos: Embora os profissionais de educação, durante a sua formação, tenham acesso às teorias de desenvolvimento infantil e a formas positivas de lidar com os desafios das criança, é muito comum que depois acabe por imperar o senso comum. Há práticas educativas como os gritos, os castigos, as recompensas, os rótulos (preguiçoso, mimado, mau) ou o autoritarismo que estão claramente apontadas como nada pedagógicas e, no entanto, são praticadas e aceites diariamente. Se algumas atitudes menos positivas podem ser compreensivas, pois não é fácil estar todo o dia com crianças e o desgaste pode ser imenso, já não é tão compreensível que estas estejam na base de certos princípios. Por exemplo, se uma educadora acha que é muito útil uma criança ficar num canto da sala porque empurrou outro miúdo, isto já reflecte a abordagem da mesma noutro tipo de situações. Estas reacções a comportamentos menos desejados por parte das crianças são muito pouco construtivas. Não existem soluções mágicas mas dá muito mais trabalho oferecer competências sociais às crianças e que estas tenham acesso a exemplos que, a longo prazo, realmente ensinam alguma coisa.

Resumindo, perceber qual é a abordagem da creche às manifestações naturais das crianças pode ser uma forma muito interessante de perceber as bases de funcionamento do local.

Internet/Redes sociais: Este tópico pode parecer um absurdo, mas eu diria que é bastante útil e permite uma excelente triagem que poupa visitas presenciais. Se o local em questão tiver um site, um blogue ou uma página do facebook, pode ser muito curioso observar que tipo de conteúdos partilham. Ainda a propósito do sono, se por exemplo uma creche partilha um artigo de que é muito importante os bebés aprenderem a dormir sozinhos, mesmo que para isso tenham de chorar, o mais provável é que isso seja prática comum nessa mesma creche. São vários os temas educacionais que geram polémica e discórdia, pelo que é bom tentar perceber se a creche ou jardim de infância tem ideologias semelhantes àquilo em que acredita ou se, pelo contrário, está no sentido oposto às suas crenças.

A direcção pedagógica identificar-se mais com um estilo de conteúdo em detrimento de outro é bastante revelador dos valores da instituição.

Flexibilidade da direcção e dos profissionais: Neste ponto, é possível que só tenhamos uma noção após o nosso filho frequentar o local em questão. Faz toda a diferença estarmos perante uma direcção flexível, aberta, que valoriza as opiniões dos pais de outra que tem um funcionamento mais fechado, rígido e sem grande margem para adaptações constantes, conforme as crianças que acolhem. Sentirmo-nos ouvidos e compreendidos é meio caminho andado para que se crie uma relação positiva entre pais e profissionais, sendo a criança quem beneficia disso directamente. Há profissionais que não admitem sugestões, que se sentem imediatamente colocados em causa ou que responsabilizam sempre os pais por qualquer coisa que surja fora de certos padrões. Há outros que são mais empáticos, tentam ver o nosso ponto de vista e mesmo que não concordem fazem por respeitar as diferenças e conviver com as mesmas. É curioso verificar que os mesmos pais, mas com crianças diferentes, podem também ter experiências diferentes na mesma instituição. Isto acontece porque as crianças não são iguais e enquanto uma se pode ter adaptado lindamente ao funcionamento da instituição, outra pode precisar que a instituição se adapte mais a ela e que seja mais flexível. Isto mostra que é necessário haver abertura suficiente para lidar com a imprevisibilidade e com o facto de não existirem receitas iguais para todos nem verdades absolutas.

Enfim, os critérios são pessoais e únicos e não há critérios mais acertados ou menos. Cada família é uma família, é importante que se mantenham fiéis àquilo que acreditam e ao contexto ambiental, social e valorativo onde querem que o vosso filho esteja integrado todos os dias.

Escolham com a cabeça, mas, também com o coração. Existem locais que nós entramos e sentimos que estão reunidas as condições, não é prefeito, mas sabemos que ali conseguimos ficar descansados.

E depois, não esqueça, depois do seu filho estar adaptado e vocês também, lembrem-se que a escola também é vossa e que as propostas e sugestões poderão ser oportunidades de melhoria e que cada vez mais as escolas têm de ser uma união entre as Famílias e os Educadores.

Boa sorte, boas visitas, não esqueça de falar com outros Pais, este período não é de todo mais fácil! Mas uma palavra de esperança, vai melhorar…e na próxima transição, vocês já terão muito mais ferramentas para poderem escolher de forma mais tranquila.

Vai correr bem!

Helena Gonçalves Rocha

Nós aqui educamos para isto.
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1 reply
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