Fertagus

ESCADAS NÃO SÃO PARA TODOS.

admiramos

Esta é uma realidade com a qual vivemos quase diariamente. Efetivamente as escadas não são para todos, seja de nascença ou porque em algum momento da nossa vida fomos obrigados a introduzir uma cadeira de rodas por uma qualquer fatalidade, ou mesmo por sermos nós mães de bebés com rodinhas.

Ao andar no comboio da Fertagus volta e meia cruzo-me com o Carlos que sempre me surpreendeu pela sua destreza no manuseamento daquela “máquina” a sua cadeira de rodas a bateria.

Por vezes dou por mim a pensar… E se fosse eu?

Numa destas minhas viagem “meti” conversa com o Carlos e conversa puxa conversa falei-lhe do LSBblog e se ele não se importaria de falar um bocadinho sobre o seu dia-a-dia. Como é óbvio todos nós tentamos imaginar um pouco as dificuldades de quem tem mobilidade reduzida e o que enfrentam quer em casa, quer nos transportes públicos e até mesmo nos locais de trabalho. Mas nada como tentar “viver” estas dificuldades na 1° pessoa com a ajuda do Carlitos, como carinhosamente é conhecido por toda a equipa da Fertagus.

A nossa conversa informal, como não podia deixar de ser, foi na estação de comboios do Pragal, onde diariamente o Carlitos apanha o comboio até Entrecampos. O encontro foi marcado para um sábado pelas 11h e às 11h lá estávamos nós.

O Carlos é sem dúvida nenhuma uma força da natureza. Quem me conhece, quem me conhece bem, sabe que não falo por falar e confesso que a meio da nossa conversa a emoção falou mais alto. Pensar que por vezes nos lamentamos de tantas pequenas coisas e eu ali, com este guerreiro à minha frente…

Só para terem uma pequena noção o Carlos tem 97% de incapacidade, ou por outro lado, apenas tem 3% de capacidade motora. Sim leram bem 3%. E perguntam vocês… Como é possível?! É! O CARLOS CONSEGUE. O Carlos trabalha, o Carlos é casado, o Carlos dança, o Carlos “desemerda-se”* como lhe diziam os pais quando era pequeno. Mas calma, não é o Super Homem e precisa, como é obvio, de ajuda suplementar para conseguir realizar algumas das tarefas que referi.

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Aos 17 anos, e depois de 12 meses em Alcoitão, o Carlos conseguiu dar a volta à sua vida. Com garra e sangue quente que se sente passar pelas veias, dedicou-se à área informática e hoje é IT numa empresa sediada em Lisboa e pelo facto de trabalhar teve o boost que precisava por parte do IEFP. A cadeira.

Todas as manhãs o Carlos levanta-se às 5:40 para sair de casa pelas 7:00, banhos e afins a mulher ajuda para ser mais rápido, as próteses dos braços, cada uma com 3 kg o Carlos apenas utiliza para lavar os dentes e fazer a barba, “não são práticas e magoam” como nos contou, os 6 kg em cima da coluna o dia todo não estavam a ajudar…

Às 7:19, apanha o Comboio para Lisboa, quando chega à plataforma encontra-se um colaborador da Fertagus à sua espera para lhe colocar uma rampa especifica para este tipo de situações. Quando se atrasa liga a avisar para não estarem desnecessariamente à sua espera… sim, ele não é o Super Homem, também se atrasa de manhã como todos nós :) De seguida, o colaborador informa o colega de Lisboa que o Carlos vai na carruagem “X” para o procedimento em Lisboa ser semelhante.

A partir daí o Carlos é autônomo, ou quase. O acesso até ao escritório é feito na normalidade quando os elevadores da estação estão em funcionamento… quando não estão o Carlos tem que ir até à estação de Roma Areeiro, dar a volta para trás para sair do outro lado da plataforma… quando o outro esta igualmente avariado é uma chatice. Como vos disse no início, escadas não são para todos e muito menos para o Carlitos.

No trabalho o Carlos trabalha quase da mesma forma como “um de nós”, a grande diferença é que faz tudo com o pé. Apenas precisa de ajuda para abrir o portátil e ligar o carregador. Na hora de almoço, o Carlos tem um serviço de apoio da Santa Casa, pago por ele, onde a Sr.ª lhe dá à boca o almoço que o Carlos preparou na noite anterior (tal como tantos nós), bem como o ajuda no acesso ao WC. Esta rotina repete-se igualmente a uma hora marcada à tarde.

No regresso a casa o processo é o mesmo. Em Lisboa é colocada à rampa, e ele entra no comboio.

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Nós aqui temos o Carlos, com uma história de vida INCRÍVEL.

Mas e se o segurança não está visível como é que o Carlos faz? FÁCIL. Não fosse ele o Carlitos, o “gajo” mais conhecido de todo o staff da Fertagus por ser quem é, e por “precisar” da ajuda e colaboração deste, segundo o Carlos, “equipa maravilhosa que está sempre disponível para me ajudar”, ele liga para a estação do Pragal, que se encarrega de em menos de nada avisar “Lisboa” que o Super Carlitos está à espera para embarcar na Linha 4. E Voilá o pior que pode acontecer é perder aquele comboio mas 10 mint depois apanha o outro.

Aos fins de semana a agenda do Carlos é cheia de atividades, a dança em cadeira de rodas é a sua loucura e paixão, não tivesse sido lá que conheceu a sua mulher que ainda não foi desta que tivemos oportunidade de a conhecer.

Muito mais havia para vos contar sobre o Carlos, é sem dúvida um “miúdo” cheio de garra, força de vontade, que mostra a quem passa a vida a reclamar de tudo, que há quem tenha “problemas” bem maiores e ainda assim os consegue superar.

Hoje, quando se for deitar, pense nisso!

Nós aqui temos o Carlos, uma história de vida INCRÍVEL.
Obrigada Carlitos,
Obrigada Fertagus por mais uma vez nos abrir a janela de uma experiência tão gratificante.

*expressão do próprio ao contar-nos abertamente a sua história de vida.

Texto: Catarina Laborinho
O Lisbon South Bay Blog agradece à Fertagus

FERTAGUS, LSBblog

 

1 reply
  1. Judite Torgal Amaral
    Judite Torgal Amaral says:

    Incrível esta história de vida que nos emociona demais. O Carlos é um guerreiro! Esta vidas põem a nossa noutra perspectiva, tantas vezes resmungamos de barriga cheia! Obrigada a quem se interessou e escreveu.

    Responder

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