JOGO DA MACACA

O INTERVALO NÃO É UM PRIVILÉGIO! Por Helena Gonçalves Rocha

Helena

O intervalo não é um privilégio! Porque é que o meu filho não deve ficar sem intervalo?

Acredito que nunca se falou tanto sobre educação, estratégias educativas, métodos inovadores para garantir o sucesso, enfim, um número ilimitado de estudos, investigações, livros editados, workshops, pais preocupados com as questões da parentalidade e do sucesso e felicidade dos seus filhos. Estamos sem dúvida na década da parentalidade consciente, na reflexão sobre a Educação que temos e a Educação que desejamos. No entanto, ainda se regista com demasiada frequência a desvalorização dos Intervalos como componente crucial no processo de Ensino- Aprendizagem.

Quando falamos de Intervalos e falamos da importância do Brincar e da atividade física, constatamos que demasiadas escolas ignoram os resultados obtidos nas mais recentes investigações. Em vez de encararem o Intervalo como algo importante, diria mesmo crucial no decorrer do dia de um estudante, algumas escolas ainda encaram o Intervalo como um privilégio, uma recompensa para alunos bem-comportados. Utilizam o Intervalo como instrumento de negociação ou muitas vezes retirando o acesso ao Intervalo como forma de punição.

Como pais temos a tendência para aceitarmos isto. Afinal, todos nós guardamos memória de perder o direito ao intervalo por não termos completado uma tarefa ou por termos falado demasiado durante a aula. Claro que odiávamos perder o intervalo, mas a verdade é que sobrevivemos. Então porquê esta preocupação por os nossos filhos perderem o direito ao intervalo uma vez por outra? A grande diferença é que nós tínhamos intervalos enormes e depois da escola brincávamos ainda mais com os nossos amigos, corríamos na rua, conversávamos e corríamos até ser hora de voltar para casa. Hoje em dia são muitos os miúdos que têm a sorte de fazer alguma atividade não dirigida durante 30 minutos.

Os resultados das investigações são claros. De acordo com a Academia Americana de Pediatria, o Intervalo desempenha um papel vital no desenvolvimento da criança, trazendo benefícios emocionais, sociais, físicos e académicos.  A Academia Americana de Pediatria acredita que o Intervalo é uma componente crucial e necessária para um adequado desenvolvimento da criança, e como tal, não deverá ser retirado como castigo ou por razões académicas. Por outras palavras, as crianças precisam dos Intervalos, e os Intervalos não deverão ser retirados como forma de punição por mau comportamento ou como forma de punição por não completar ou completar incorretamente as tarefas propostas em sala de aula.

O Intervalo não é um privilégio. Não é uma recompensa. As crianças não deverão ter de conquistar o Intervalo, assim como não o podem perder como castigo.

Helena gonçalves rocha

O Intervalo é uma parte fundamental do desenvolvimento diário de um estudante, retirá-lo faz tanto sentido como retirar a matemática e a leitura. Não fará deles melhores estudantes nem melhores pessoas. Então porque será que ainda existem tantas escolas que utilizam esta forma de punição?

Talvez porque parece uma solução fácil para inibir os comportamentos indesejados. O problema é que este castigo é muito menos eficaz a corrigir comportamentos relativamente a outros métodos de disciplina. A verdade é que são os miúdos mais agitados e irrequietos que necessitam mais do tempo de Intervalo. Neste período eles conseguem libertar as suas energias, socializar e organizarem-se novamente para outro período de atenção na sala de aula.

Outra razão possível para as escolas retirarem os Intervalos  será o facto dos professores terem programas demasiado extensos com opções e tempo muito limitados.

Bom, mas não serve de muito falarmos só nos problemas e não falarmos em soluções.

Então, como podem os professores alterar ou melhorar o comportamento dos alunos sem retirarem o Intervalo?

Não existem soluções simples, mas uma das chaves para os problemas será o apoio da direcção escolar e dos pais. Os diretores poderão trabalhar com os professores no sentido de encontrarem formas alternativas de disciplina e formas de melhorarem o comportamento dos alunos (talvez oferecendo Intervalos mais frequentes, diversidade e variabilidade no contexto das aprendizagens). As escolas deveriam manter os canais de comunicação com os pais bem abertos. Ou seja, quando os pais conhecem as expectativas dos professores e de que forma o seu filho está a corresponder, poderão sugerir e encontrar algumas soluções em conjunto.

Retirar o Intervalo não vai de encontro ao supremo interesse da criança. Poderá levar anos a atribuir o devido lugar e importância aos Intervalos, mas o primeiro passo para que tal aconteça, passa pela consciencialização de que o Intervalo não é uma recompensa reservada só para aqueles que se portam bem.

A infância passa a correr e o tempo que as crianças dispõem para brincar hoje em dia, diminuiu drasticamente nos últimos anos.

Uma criança que Brinca, que gasta as suas energias, que improvisa com os seus pares, que socializa, será, sem dúvida alguma, uma Criança mais disponível para aprender!
Helena Gonçalves Rocha

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