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O PRIMEIRO COLINHO DA MINHA IRMÃ FOI NA MARGEM SUL!

agradecemos 1

Apetece-me falar da minha irmã. Não é dia da irmã, não faz anos e não aconteceu nenhuma efeméride para vir à tona, mas apetece-me. Quero falar da minha irmã.

A minha irmã é a pessoa que eu mais gosto no mundo e arredores. Desde há 6 anos atrás que passou a partilhar essa posição e temos lugares exequos, mas continua lá, no pódio que será sempre dela. Este lugar ninguém lho tira.

Somos muito diferentes. Tão diferentes que quase se coloca em dúvida que viemos dos mesmos seres e que vivemos tantos anos juntas. Viemos e vivemos. Os nossos valores e atitudes comprovam isso mesmo. Somos da mesma casta. Das boas (modéstia à parte).

Uma coisa é certa, ela não vai gostar disto. Esta exposição vai deixá-la chateada, mas vou usar os meus cartuchos de que, qualquer coisa que eu faça (inclusivé de errado), vai sempre gostar de mim. Desculpa Célia. É a nossa vida.

A minha irmã é reservada, discreta e muito ponderada. Já eu… é o que se sabe! Mas não estamos aqui para falar de mim. A minha irmã tem um coração gigante e vive preocupada com outros. Provavelmente, um defeito a assinalar-lhe. Posso falar disto, pois o primeiro colinho da minha irmã de que tenho memória foi aqui, na margem sul. Recordo com saudade quando vim para a colónia de férias, com 7 anos, aqui na Verdizela e chorava baba e ranho a chamar pela minha mãe. Lá tinham os monitores que chamar a minha irmã, mais velha, a querer curtir a adolescência e a ter de ir dar colinho à pequena que berrava por estar longe dos papás. Aquele colinho era tudo. Acalmava-me na hora. A minha irmã nunca se queixou. Nunca me fez sentir que eu era um peso na vida dela. E devia, porque naquela altura era bem rechonchuda e devia fazer-lhe mal às costas, mas adiante. A minha infância foi muito feliz e a ela se deve. Já a sua juventude não tenho a certeza, porque eu não devia ser a irmã mais nova que ela queria ter. Se fosse eu não queria.

Vaidosa, estouvada, chata e pior que tudo, meus amigos, eu era bufa e chantagista. Foi um ar que se me deu e felizmente foi sol de pouca dura, mas para conseguir o queria era assim, só parvita. A Célia, nunca me cobrou isso. A Célia continuou a levar-me à sair à noite e a cuidar de mim sem pestanejar. E eu merecia um chega para lá.

A minha irmã foi a única pessoa por quem andei aos tabefes. Apesar da minha adolescência parva (e que atire a primeira pedra quem não teve uma dessas!), ai de alguém que ousasse dizer algo à minha irmã que a pudesse ofender. Essa possibilidade era só minha! Virava fera para a defender, como se ela não o conseguisse fazer só com aquele olhar 33 que tem. Houve uma vez que não gostei e dei uma chapada a quem lhe disse coisas menos giras. Se fosse comigo, devia por o rabinho entre as pernas e fugia a correr, porque a coragem era uma cena que me assistia, mas só para ela (e antes de pensar no assunto). Já hoje sou uma bacana, e saio de cena.

Não temos os mesmos gostos, não temos os mesmos hábitos, não temos as mesmas escolhas. Mas é a primeira pessoa a quem eu recorro para as boas notícias e para as más. Rimos, choramos (mais eu, que choro com o ar), cuidamos e abraçamos juntas. E é assim que eu quero tê-la até sermos bem velhinhas. Junto a mim.

Eu admiro-a tanto. A sua inteligência, a sua generosidade, a sua entrega, a sua rectidão. Serei eternamente grata por te ter, Célia.

Só desejo que as minhas filhas sintam uma pela outra o que eu sinto por ti. Pelas estaladas, queixinhas e abracinhos a que assisto, estão no bom caminho para isso.

Nós aqui temos colinho de irmã.
Nós aqui temos isto.

Texto: Marlene Gaspar
Foto: Lisbon South Bay blog

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