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SEREI UM PAI HELICÓPTERO?

Helena

No outro dia estava junto a um parque infantil a conversar com uma amiga, quando a certa altura comecei a ouvir uma voz masculina que frequentemente gritava “Maria! Maria!”. Ao início parecia somente o barulho de fundo característico de um parque infantil, mas aos poucos comecei a ficar curiosa com o que estaria a passar. Foquei a minha atenção no dono da voz que gritava e naquela que eu presumi que seria a sua filha, Maria. Assim que comecei a tomar mais atenção começou a soar-me mais assim:

Maria! Aqui, aqui! Por aqui! Maria, olha, olha! Vira para este lado, Maria! Agora para o outro lado. Olha para aqui! Anda cá! Senta. Escorrega agora! Boa, linda menina!”

Esta é uma típica situação de “Pai helicóptero”, que neste caso estaria altamente empenhado em liderar e orientar a brincadeira da criança. Infelizmente, com tanta orientação do seu pai, a criança parecia não estar a usufruir muito da brincadeira. Este homem estaria claramente muito bem intencionado, mas seria importante analisarmos este comportamento pela perspetiva da criança.

Na literatura internacional já encontramos a descrição dos “Pais Helicópteros” como: “Pais que pairam sobre os seus filhos, independentemente das suas necessidades ou desejos. Pais super protetores que não querem que os seus filhos enfrentem qualquer dificuldade sem a ajuda dos pais

Se, por algum acaso, se identificar com algum dos exemplos descritos, saiba que ainda é tempo para repensar a sua prática e ajudar o seu filho a crescer. Sim, porque este fenómeno de pais helicópteros quando se prolonga pela adolescência e idade adulta, acarreta consequências bem graves. Os filhos dos pais “helicóptero” são crianças, adolescentes e adultos que, cresceram sob a capa protetora dos pais, desenvolvem uma personalidade frágil, imatura, muitas vezes infantil, e com fracas competências sociais. Como têm medo de errar, não arriscam, não desenvolvem ferramentas para lidar com a adversidade, com a perda ou com a frustração. Não conseguem ser independentes.
Mas o que podemos tentar fazer para corrigir esta tendência?

1) Deixe que seja o seu filho a liderar a brincadeira
 No início falei-vos do pai que orientava a filha no parque infantil. Na verdade, a única coisa que precisa fazer é seguir a criança, ou saber onde ela está, dependendo da idade. O brincar surge espontânea e naturalmente, especialmente em idades mais baixas, em que tudo é novidade. Eles não precisam que nós lhe digamos como têm de brincar. Deixamo-los trepar às superfícies mais altas (esperando para os amparar se necessário), subindo todos os degraus do escorrega e esperando por eles no final do túnel.

2) Ampare o seu filho, mas não o segure
Isto é tão, mas tão importante…muitas vezes pensamos que as crianças pequenas são descoordenadas e instáveis, o que não se afasta muito da verdade. E têm tendência a permanecer durante mais tempo nesta fase quando nós constantemente as seguramos para que trepem, as levantamos do chão quando caem. Deste modo, nunca experimentam a sensação de desequilíbrio ou aperfeiçoam o seu reportório de movimentos necessários para as tornar fortes, seguras e coordenadas com os seus movimentos.

Um exemplo que observo frequentemente nos parques infantis (que por sinal não são tantos quantos os desejáveis..), são os bem intencionados pais que acompanham os seus filhos pequeninos bem de perto e que quando eles necessitam de escalar uma parede ou subir uma escada, rápida e eficazmente os colocam lá em cima. A verdade é que nesta etapa de desenvolvimento, as crianças estão a aprender novos movimentos e a experimentar as várias soluções possíveis para alcançarem o objetivo que traçaram. Parece demasiado ambicioso para uma criança de dois anos? Claro que não…Tem oportunidade de planear e executar, aprender com o erro… Se o deixarem…

Como podemos fazer? Estar perto para amparar se necessário e incentivar para que experimente e arrisque. E se ele cai? Teremos de avaliar se é uma boa ou uma má queda. Porque também é muito importante saber cair e mais importante ainda, saber como se levantar e prosseguir…

3) Dê oportunidade à criança de resolver problemas à sua maneira (sim, mesmo as crianças mais pequeninas)
A forma mais comum de ser um pai helicóptero é na intervenção parental em situações de conflito. Isto revela a nossa falta de confiança nas competências das crianças para resolução de problemas. Quantas vezes já assisti, nomeadamente em festas infantis, a uma das crianças avançar rapidamente para outra e tirar-lhe o seu brinquedo preferido e quando o “lesado” se prepara para retaliar, surgir um adulto com o discurso de “Também tens de partilhar…”. Eu queria ver se algum de vocês estivesse no seu telemóvel entretido e daí surgisse alguém que lho arrancasse da mão, não reagiam? É preciso partilhar?

Temos de dar oportunidade à criança de tentar resolver os seus problemas. Por vezes os desfechos, sem intervenção do adulto, são inacreditáveis e favoráveis.

Outro exemplo, que assisto diariamente, em idades bem mais precoces, a criança que está em aquisição das etapas básicas de desenvolvimento motor e que está rodeado de todos os brinquedos e não tem necessidade de se mexer para os poder alcançar. Temos mesmo de deixar que as crianças se frustrem um pouco e tentem encontrar soluções para os seus problemas. A criança que tem tudo disponível, e ao seu alcance não estimula as suas competências de resolução de problemas, atrasa o seu desenvolvimento motor e não treina as suas capacidades de generalização de resolução de problemas.

4) Dê hipóteses de escolha, não ordens
Aparecem-me tantos, mas tantos meninos que são “manipulados” ao longo do dia. Agora veste o casaco, agora calça o sapato, agora o outro. Vai para a esquerda, por aí não…

Não me levem a mal, mas as crianças perdem o hábito de pensar. Não precisam…Alguém lhes há-de dizer qual o próximo passo a tomar. Eu sei que não é por mal, eu sei que é com a melhor das intenções, mas os miúdos vão se desenvolvendo com uma crescente insegurança que podemos perfeitamente contrariar. E como?

Dê-lhes hipóteses de escolha. Obrigue-os a pensar. Hipóteses razoáveis e concretizáveis, continuamos a manter tudo sobre controlo, mas obrigamo-los a pensar, a fazer escolhas, a planear.

-O que vais vestir primeiro? As calças ou a camisola?
-Que meias vais calçar? As azuis ou as vermelhas?
-Queres brincar com o loto ou com o puzzle?

A possibilidade de escolher, de assumir o controlo, aumenta enormemente a auto-estima da criança. Tudo hipóteses possíveis e viáveis, mas que fazem maravilhas pela organização do pensamento das nossas crianças.

5) Dê tempo ao seu filho e confie nele
As crianças precisam de tempo para encontrar as suas soluções, esteja sempre por lá, mas confie que irá lá chegar. Não tem de ser aqui agora, pode ser mais logo e por outro caminho diferente do meu…

Não é nada fácil, admitirmos que o nosso filho sabe mais do que aquilo nós ensinámos e que sabe coisas diferentes, mas também importantes.

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Já alguma vez tinha pensado nisto? O que lhe parece? Aceita mais este desafio?
Fico à espera dos vossos testemunhos.
Até lá, tenham uma excelente semana.
Helena Gonçalves Rocha

Nós aqui educamos para isto.
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