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SOMOS TODOS IGUAIS OU TODOS DIFERENTES? Por Helena Gonçalves Rocha

Helena

Esta semana comemorou-se a 21 de Março, o Dia Mundial da Síndrome de Down, este dia foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 2006. Amplamente divulgada, a data tem por finalidade informar sobre o tema e reduzir a origem do preconceito. Por outras palavras, combater o “mito” que teima em transformar uma diferença num rótulo, numa sociedade cada vez mais sem tempo, sensibilidade ou paciência para o “diferente”.

Há alguns anos atrás descobri uma fotografia do meu grupo de jardim de infância dos anos 70 onde figurava um dos meus colegas portador de síndrome de Down, fiquei muito satisfeita pois guardo muito boas recordações da minha educadora Filomena, das corridas no pinhal e não tenho qualquer memória de qualquer um de nós ser Diferente, pois na verdade não o éramos, todos gostávamos de brincar, todos gostávamos de “fazer trabalhos” e fazer visitas de estudo. Alguns eram louros, outros usavam cabelo comprido, eu usava uns grandes óculos e andava sempre com nódoas negras nas pernas, outros gostavam de estar sossegados no recreio, afinal seríamos todos muito diferentes.

Helena Gonçalves Rocha

Tão diferentes que anos mais tarde, já no secundário, uma colega desse tempo me reconheceu e confessou que nunca mais se havia esquecido de mim. Uau.. Porquê? Porque costumavas andar atrás de nós com as lagartixas que apanhavas no pinhal!… Ups…

Na verdade, acredito que desde a primeira infância a educação para a diferença e o respeito pelo outro deveriam ser condições imprescindíveis na educação que delineamos para os nossos filhos.

A escola inclusiva, a escola que dá resposta a todos consoante as suas necessidades, promovendo a interação entre todos com todas as suas diferenças, foi sempre uma realidade para mim. Os valores, os ensinamentos que cada criança retira deste tipo de experiência é inestimável.

Os miúdos estão tão habituados a serem tão diferentes entre si a juntar a isso têm um adulto que medeia estas relações e os ajuda a perceber as diferenças e os ensina a respeitá-las e perceber que todos somos importantes e que podemos sempre apoiar e ajudar o nosso colega, tudo, mas tudo,  se torna mais fácil.

Não resisto a partilhar alguns episódios convosco, da minha vida pessoal e também da minha vida profissional. Sempre desenvolvi o meu trabalho nos contextos naturais das crianças, ou seja, um dos locais que visito regularmente são as salas de jardim de infância e posso dizer-vos que este é um dos meus locais de aprendizagem preferidos. As crianças com a sua ingenuidade e forma pura de ver e interpretar o mundo que as rodeia, recordam-nos sempre como tudo pode ser tão simples, sim porque quando crescemos temos uma tendência a complicar o que é simples.

Pois bem, numa das minhas intervenções em jardim de infância o João (nome fictício) com 4 anos ainda não conseguia andar sozinho, então, juntamente com a sua educadora de infância encontrámos variadas estratégias para que ele ao longo do seu dia fosse praticando as diferentes habilidades necessárias para que conseguisse alcançar esta meta. Uma das atividades consistia em levantar-se do chão e ir marcar a sua presença no mapa da sala, pois bem, quando eu lhe pedia que se levantasse, o João, invariavelmente, dizia que não. Assim que um colega lhe estendia a mão o Senhor João levantava-se com a maior das alegrias e sorrindo, executava a tarefa na perfeição. E aqui estávamos nós a ligar o “complicómetro”, claro está, que seria mais natural ser um colega a prestar este apoio em vez de um adulto “especial”. Sempre a aprender…

Agora quando vou às salas pergunto sempre quem são os meninos que são mais “ajudadores”, que são mais atentos aos outros, eles são ajudas inestimáveis e levam consigo um amor ao outro e uma solidariedade que os fará de certo adultos diferentes.

Helena Gonçalves Rocha

Não esqueço também quando o meu filho mais velho tinha na sua turma um menino autista, sem linguagem verbal. O meu filho sempre foi muito curioso e como tal sempre que eu chegava bombardeava-me de perguntas sobre o comportamento do Pedro (nome fictício) e qual a forma mais fácil para que ele próprio também o pudesse ajudar. Um dos comportamentos do Pedro mais difícil de entender era quando ele se entretinha a destruir as brincadeiras que os outros meninos faziam no recreio, aí, o meu filho já achava que era maldade, e mesmo querendo ajudar era muito difícil para ele, com 5 anos, entender que pudesse ser qualquer outra coisa. Foi nessa altura que lhe expliquei que o Pedro, que tinha autismo, provavelmente teria este comportamento porque não sabia como brincar com eles, e esta era a forma que ele encontrara para comunicar, mas que se ele o ensinasse como fazer, ele conseguiria aprender e poderiam brincar sem ver tudo destruído. E assim foi. Durante muitas semanas jogou-se à apanhada no recreio com o Pedro, repetidas vezes, quase sem conseguirem parar, com um Pedro muito, muito feliz.

Certo dia quando o fui buscar ao jardim de infância estava o meu filho sentado na cadeira, com o Pedro sentado no chão a abrir-lhe e fechar-lhe as pernas. E eu, mãe cheia de pressas, chamo-o: Vamos embora filho! Diz até amanhã! Ao que ouço a seguinte resposta muito prontamente: Ó mãe, tu não estás a ver que o Pedro está a brincar? E está a gostar tanto…

E nesse momento, eu desacelerei e vi como o meu filho estava atento ao outro e às suas necessidades e como para ele era importante o Pedro estar feliz. E claro está fiquei muito feliz pelo menino que assim estava a crescer e fiquei muito feliz pelo Pedro tinha arranjado um amigo.

As meninas são habitualmente mais solidárias e empáticas e a minha filhota não é excepção, já na escola primária conseguia encontrar sempre as causas possíveis para justificar o comportamento do seu amigo Gonçalo (nome fictício) e teimava, porque teimava que havia de ser ela a ensinar-lhe algumas matérias e a acalmá-lo sempre que fosse necessário.  Via-o como um dos outros colegas, simplesmente mãe, precisa de uma ajudinha extra!

Helena Gonçalves Rocha

Mais uma vez reforço, estas experiências são altamente enriquecedoras para termos adultos melhores, mais empáticos e solidários com o Outro.

Experimente fazer esse exercício com o seu filho. Quem ajudaste hoje? Reparaste se todos tinham com quem brincar?  Todos nós temos diferentes ritmos de aprendizagem numa ou noutra área, podemos sempre ajudar alguém naquilo que temos facilidade e podemos sempre aceitar a ajuda do outro para podermos melhorar. E não se esqueçam de tratar os outros como gostariam de ser tratados.

Estes são ensinamentos que começam agora, quando eles ainda são pequeninos e que mais tarde os irão ajudar a viver em sociedade, a aceitar as suas diferenças e as diferenças do outro, porque afinal todos temos os mesmos objetivos: ter oportunidades, educação, trabalho, amigos e amor. Afinal somos todos muito iguais quando apenas queremos ser Felizes!

Nós aqui educamos para isto.
Nós aqui temos isto!

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