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TODOS OS CAMINHOS FORAM DAR A FÁTIMA.

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Há muitos anos que tinha na minha bucket list fazer uma peregrinação a Fátima, mas como outros desejos e objetivos foi sendo procrastinado, todos os anos dizia: – “para o ano é que é”. E este ano, foi.

O meu pai vai a pé a Fátima há 15 anos desde perto de Vila de Rei (mais precisamente da Freguesia da Fundada de onde é) com o mesmo grupo. Este ano, cerca de 15 dias antes perguntei-lhe se podia ir com ele. Senti-lhe um misto de surpresa, satisfação e preocupação do tipo “será que ela sabe no que se está a meter”, mas disse logo que sim.

Por vezes vou correr no paredão da Costa da Caparica, que é um dos meus percursos preferidos para isso, pela boa energia da praia (já dizia a Rita Deus) e pela extraordinária companhia do mar. No sentido Fonte da Telha para S. João da Caparica encontram-se setas que indicam o percurso: “Fátima”.

FÁTIMA

Foram-me inspirando e dando ainda mais vontade de fazer a peregrinação. Embora, houvesse vários grupos a sair da margem sul, queria fazer aquele percurso com o meu pai (ok, também reconheço que 68 km em dois dias é diferente de cerca de 160km em cinco). Mas, se acham que 68 km a pé em 2 dias se fazem com uma perna às costas, não. Faz-se com tudo às costas, porque ao fim de algumas horas a andar tudo assume um peso desmedido.

A peregrinação é muito mais que uma caminhada. É uma experiência verdadeiramente compensadora, verdadeiramente prazerosa, com sacrifício, mas onde entramos num estado de despejo tal que nos faz sentir muuuuito bem. Faz-nos ser melhores. Valorizamos o outro, nós próprios. O nosso grupo tinha 16 peregrinos e 2 acompanhantes no carro de apoio. Eu era a mais nova do grupo e a única “caloira”. Nem por isso era a que reunia as melhores condições (físicas, lá está) para fazer aquele percurso. Pela cara deles de “fazer isto é como ir uma hora ao ginásio”, fez-me concluir que eu estava em desvantagem. Para além do meu pai, conhecia uma ou outra pessoa e algumas pessoas de vista. Sem dúvida, que uma das melhores lições e recompensa da viagem foi a generosidade de todos eles.

Há tempo para tudo, andar, fazer exercício físico (este é o tempo todo), meditar, rezar, pedir, agradecer e sobretudo e aquele que mais valorizei o silêncio. Uma forma de silêncio connosco que jamais senti e, que tanto me preencheu.

Não falei com quase ninguém sobre ir fazer esta viagem, até porque foi decidida pouco antes e não senti essa necessidade. Alguns que souberam perguntaram se estava a cumprir uma promessa. Não fui com esse intuito, o que não me inibiu de pedir e sobretudo agradecer.

Cada quilómetro foi sentido, cada paragem ainda mais (custa à brava recomeçar a caminhar. Todos os músculos fazem-se sentir em forma de dor. E temos tantos. Tantos músculos e tantas dores!) Mas, tive muita sorte, os meus pés ficaram impecáveis (e eu que sofro de pé de atleta estava em pânico que ele desse o ar de sua (des)graça). O primeiro dia a chuva fez-se sentir intensamente, mas ninguém vai à espera de ir em passeio. O caminho faz-se caminhando e, passo a passo, foi o que fizemos.

A sensação de missão cumprida quando se chega ao santuário é uma satisfação difícil de explicar. No dia seguinte não me mexia, cada músculo fez-se notar de forma ainda mais dolorosa, mas foi sem dúvida a melhor 6ªf, 13 que passei, pelo menos da que tenho memória. Assim como há a boa energia da praia, há a boa energia deste feito. E, quando no grupo me perguntaram se queria repetir a experiência, sem hesitar disse que sim. Podendo, vou fazendo. Há muitos anos que não estava em Fátima no 13 de maio e adorei ter acesso ao “pacote completo” – a peregrinação, a procissão das velas e o “adeus” à Virgem Maria.

FÁTIIMA

Para mim uma vez peregrino para sempre peregrino, por isso quero agradecer ao grupo que me acolheu e espero um dia poder retribuir de alguma forma.

Já voltei a correr no paredão da Costa da Caparica. 8km. Dois dias depois de chegar. Aquelas setas a indicar “Fátima” ganharam outro sentido e fazem parte integrante da paisagem. Da minha paisagem. Quem sabe quando seguirei dali até lá…

Marlene Gaspar

Nós aqui, caminhámos para Fátima.
Nós aqui, temos isto.

 

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